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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

registros aka


ando pensando há algum tempo em fazer uns vídeos. nada assim super profissional, que não tenho competência pra isso por enquanto. mas a câmera nova chegou e dá pra quebrar um bom galho.

a princípio, queria gravar umas histórias, uns algos de família, crente que isso um dia vai ser um super-8 na minha vida, com uma qualidade que vai deixar de existir com a evolução dos dispositivos de captação de mídia e carregando uma nostalgia boa que arrepia os pêlos da bochecha.

e queria começar com as minhas avós. uma conversa camarada, contando umas histórias da vida, uns apegos e outros episódios que a gente não fica sabendo direito, por ser de umas gerações depois.

uma delas, fissurada em novelas de toda sorte, era minha primeira candidata. a teresa, de quem já falei aqui. da última vez que nos vimos, coisa de duas semanas atrás, ela tava deitada na cama do hospital, com os olhos vivos que não condiziam com o resto do corpo.

essa questão tensa da velhice: você chega no seu auge de vivência, mas o aparato segue o caminho oposto, trazendo restrições que você plantou com o passar dos anos e que dão um ritmo mais lento e, por vezes, limitado à vida.

como o ritmo mais lento foi meu, ela acabou virando história no último domingo, antes que eu pudesse concretizar essa vontade de registrar a história em lugar diferente que não só a memória.

estava deitada na cama, dormindo, com o telefone sem fio do lado. do mesmo jeito que fazia desde que o mundo é mundo e o telefone sem fio existia na casa dela. em paz, de um jeito que todo mundo merece. tchau, vó.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

coágulos de gordura

mamãe fazia pastéis de nata. na verdade, não eram exatamente pastéis, e sim pasteizinhos - um diminutivo cuja grafia me intriga um pouco e eu, como bom recalcado, evito-o. mas eram versões miniaturas de pastéis, assados e meticulosamente molhadinhos ao acaso, o mesmo cuidado descuidado dispensado aos cabelos de hoje em dia.

pois bem, ela fazia esses pastéis impagáveis. e o freezer era, então, como se fosse o backstage de um laticínio: muita nata. aquela mesma nata que me faz dizer impropérios quando aparece desavisada no meio do leite. e as pessoas reuniam suas respectivas natas em copinhos, copões e potinhos de toda sorte e levavam felizes lá pra dona mônica, felizes e obviamente esperando ganhar alguma rebarba do produto final daquela matéria indigna.

eram amontoados e mais amontoados daqueles coágulos de gordura de leite, uma loucura. e o pior: leite de todo mundo que fazia parte desse círculo de troca de nata. tudo fruto daquele tempo em que as pessoas ferviam litros de leite e a nata era parte do dia-a-dia de todo mundo. não haviam vacas desnatadas, semi-desnatadas, light, com ômega 3, vacas de soja, vacas de cabra ou qualquer outro modelo desses que há hoje em dia. desconfio, do alto do meu comentário impertinente, que a nata seja culpa do saquinho (mas isso é porque eu tomo leite desnatado, fresco que sou).

[continua]