jardim botânico aka
construindo a memória
me perdi por horas. a ressaca mais o senso de localização chucro me fizeram descer na estação errada, me perder à pé, andar em círculo, me perder depois de bicicleta até que, enfim, consegui chegar, com a baguete atrasada, no destino certo. o bônus ficou por conta da entrada que eu não sabia que tinha que pagar e não me cobraram -- uma mãozinha do destino, considerando que a carteira tinha nada mais do que quatro centavos. chegando lá, o jardim botânico milimetricamente planejado, flores, muitas flores de todos os tipos, em trouxinhas, em cabeleiras, tudo misturado e desordenado cheio de harmonia. no céu, um crepúsculo desses do velho continente que duram três horas, em nuances que foram do azul claro ao preto, com alguns lampejos meio rosados, durando até quase onze da noite. no palco, um quarteto de jazz com alguns convidados e acompanhado de um coral, homenageando mozart a seu modo, com direito a beatbox e uma senhora de cabelos longos de única dançarina da plateia, no último dia de um festival que eu felizmente não deixei passar. vivendo uma daquelas cenas que você tem certeza que vai estar nos flashes da memória o resto da vida, no repositório de imagens bonitas.
domingo, 31 de julho de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
museus aka
pas de deux
um áudio-guia, senhor? não, não, obrigado, na língua que convier. é isso, o tempo de guardar as tralhas e talvez mais uma estratégica ida ao banheiro antes de desfrutar de um pouco de cultura que custa caro e, na ânsia coletiva de construir um intelecto, geralmente fica lotado de pessoas que não entendem nada (não estou me colocando fora desse grupo, que fique claro).
então, é dada a largada para um percurso de salas organizadas de acordo com a subjetividade de alguém que supostamente soube o que estava fazendo.
invariavelmente desenvolvem-se parceiros de percurso expositivo dos quais se tenta desvencilhar entrando numa sala adjacente, mas que o destino, em pleno deboche, acaba por reunir poucos momentos depois. um alento e tanto para as almas mais românticas que esperam conhecer o seu outro significativo numa ocasião assim, que envolva solidão e fruição artística.
entrando mais ou menos junto, um casal. o brilho nos olhos, a gratuidade dos sorrisos e a partilha insistente e cuidadosa de impressões e opiniões denunciava que tratava-se de um relacionamento recém-nascido, um natipouco.
uma dessas pequenas intimidades ocasionais que acontecem no elevador, na espera para que o sinal de pedestres seja favorável, nos acotovelamentos em balcões de bares com pouca mão-de-obra e preço elevado, na cumplicidade de filas de pessoas ou veículos, no esmagamento inevitável dos transportes públicos em horários concorridos e assim por diante.
sendo um casal em pleno verão de relacionamento, as expectativas orgiásticas foram reduzidas; mas sendo um museu que não valia tanto quanto se imaginava, deu mais graça ao trajeto. trajeto que, aliás, agonizava, naquele momento em que os funcionários entediados e uniformizados começam a expulsar a multidão de cáqui que finge não dar ouvidos até o último momento, quando ganha vez uma leve dose de grosseria.
nada que atrapalhasse o ritmo do par. eram dois quadros e uma entrelaçada descompromissada de mãos. mais dois passos e um queixo apoiado em ombro alheio, quase numa tentativa de partilhar a mesma visão da tela. os braços se roçavam sempre que possível, o andar em dupla era bem conjugado, um afago no braço ou nas costas acontecia de tempos em tempos.
tudo transpirando casualidade e respirando maquinações amorosas com minúcia de dança clássica das mais rígidas, que obriga a destruição dos pés e um regime quase ditatorial para fazer emergir a leveza e os corpos esculpidos com esmero das ditas bailarinas. no caso, dois bailarinos.
pas de deux
um áudio-guia, senhor? não, não, obrigado, na língua que convier. é isso, o tempo de guardar as tralhas e talvez mais uma estratégica ida ao banheiro antes de desfrutar de um pouco de cultura que custa caro e, na ânsia coletiva de construir um intelecto, geralmente fica lotado de pessoas que não entendem nada (não estou me colocando fora desse grupo, que fique claro).
então, é dada a largada para um percurso de salas organizadas de acordo com a subjetividade de alguém que supostamente soube o que estava fazendo.
invariavelmente desenvolvem-se parceiros de percurso expositivo dos quais se tenta desvencilhar entrando numa sala adjacente, mas que o destino, em pleno deboche, acaba por reunir poucos momentos depois. um alento e tanto para as almas mais românticas que esperam conhecer o seu outro significativo numa ocasião assim, que envolva solidão e fruição artística.
entrando mais ou menos junto, um casal. o brilho nos olhos, a gratuidade dos sorrisos e a partilha insistente e cuidadosa de impressões e opiniões denunciava que tratava-se de um relacionamento recém-nascido, um natipouco.
uma dessas pequenas intimidades ocasionais que acontecem no elevador, na espera para que o sinal de pedestres seja favorável, nos acotovelamentos em balcões de bares com pouca mão-de-obra e preço elevado, na cumplicidade de filas de pessoas ou veículos, no esmagamento inevitável dos transportes públicos em horários concorridos e assim por diante.
sendo um casal em pleno verão de relacionamento, as expectativas orgiásticas foram reduzidas; mas sendo um museu que não valia tanto quanto se imaginava, deu mais graça ao trajeto. trajeto que, aliás, agonizava, naquele momento em que os funcionários entediados e uniformizados começam a expulsar a multidão de cáqui que finge não dar ouvidos até o último momento, quando ganha vez uma leve dose de grosseria.
nada que atrapalhasse o ritmo do par. eram dois quadros e uma entrelaçada descompromissada de mãos. mais dois passos e um queixo apoiado em ombro alheio, quase numa tentativa de partilhar a mesma visão da tela. os braços se roçavam sempre que possível, o andar em dupla era bem conjugado, um afago no braço ou nas costas acontecia de tempos em tempos.
tudo transpirando casualidade e respirando maquinações amorosas com minúcia de dança clássica das mais rígidas, que obriga a destruição dos pés e um regime quase ditatorial para fazer emergir a leveza e os corpos esculpidos com esmero das ditas bailarinas. no caso, dois bailarinos.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
datas aka
a poupança bamerindus não existe mais
hoje tem exatos dois anos que pisei aqui pela primeira vez, e praticamente cinco meses que tenho pisado aqui diariamente. deveria ser momento pra dizer muitas coisas mais, mas é tarde. no sentido mais de quatro da manhã, e não falando tempo que escorre pelos dedos, é bom ressaltar.
é também dia de festa por causa da chegada do verão, a mesma data que era reservada a um dos grandes ritos pagãos por séculos. a meteorologia é que parece não ter entendido isso: lá fora chove e a sensação térmica não condiz nada com esse solstício de verão que está em vias de.
a poupança bamerindus não existe mais
hoje tem exatos dois anos que pisei aqui pela primeira vez, e praticamente cinco meses que tenho pisado aqui diariamente. deveria ser momento pra dizer muitas coisas mais, mas é tarde. no sentido mais de quatro da manhã, e não falando tempo que escorre pelos dedos, é bom ressaltar.
é também dia de festa por causa da chegada do verão, a mesma data que era reservada a um dos grandes ritos pagãos por séculos. a meteorologia é que parece não ter entendido isso: lá fora chove e a sensação térmica não condiz nada com esse solstício de verão que está em vias de.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
com a palavra, o pianista austríaco aka
a eterna ignorância
je n'ai jamais aimé les livres. chaque fois qu'on les ouvre, on s'attend à quelque révélation surprenante, mais chaque fois qu'on les ferme, on se sent plus découragé. d'ailleurs, il faudrait tout lire, et la vie n'y suffirait pas. mais les livres ne contiennent pas la vie; il n'en contiennent que la cendre; c'est là, je suppose, ce qu'on nomme l'expérience humaine.
ou, em (quase) bom português:
eu nunca gostei dos livros. a cada vez que os abrimos, esperamos por alguma revelação surpreendente, mas a cada vez que os fechamos, nos sentimos um pouco mais desencorajados. além disso, seria necessário ler tudo, e uma vida não bastaria para tanto. mas os livros não contêm a vida; eles contêm apenas suas cinzas; e é isso, imagino eu, o que chamamos de experiência humana.
marguerite yourcenar, "alexis ou le traité du vain combat", p. 41 (folio)
a eterna ignorância
je n'ai jamais aimé les livres. chaque fois qu'on les ouvre, on s'attend à quelque révélation surprenante, mais chaque fois qu'on les ferme, on se sent plus découragé. d'ailleurs, il faudrait tout lire, et la vie n'y suffirait pas. mais les livres ne contiennent pas la vie; il n'en contiennent que la cendre; c'est là, je suppose, ce qu'on nomme l'expérience humaine.
ou, em (quase) bom português:
eu nunca gostei dos livros. a cada vez que os abrimos, esperamos por alguma revelação surpreendente, mas a cada vez que os fechamos, nos sentimos um pouco mais desencorajados. além disso, seria necessário ler tudo, e uma vida não bastaria para tanto. mas os livros não contêm a vida; eles contêm apenas suas cinzas; e é isso, imagino eu, o que chamamos de experiência humana.
marguerite yourcenar, "alexis ou le traité du vain combat", p. 41 (folio)
quarta-feira, 13 de abril de 2011
outro level aka
accro à pina
dia desses eu combinei com um par de pessoas e fui ao cinema assistir pina, o documentário (?) em 3d dirigido pelo win wenders sobre a tão falada coreógrafa alemã de quem eu conheço tão pouco.
a grande première foi no festival de berlim, fins do último ano, fora da competição oficial. o motivo pra essa exclusão eu vim a descobrir depois: seria covardia, como acontece com as grandes estreias de grandes diretores nos grandes festivais, cheias de grandes expectativas.
covardia porque pina é um filme lindo, à altura da personalidade a quem é dedicado. mostra a sua trupe de dançarinos-atores, com quem ela conviveu por décadas, com quem tinha uma relação que me pareceu bem intensa e, o mais bacana, dos quais ela pegava traços e expunha vivências pra compor seus espetáculos, sempre com delicadeza.
o resultado é deixar qualquer um bobo. a terceira dimensão, usada num filme sem pirotecnia, como é de praxe, dá um brilho novo à coisa toda. seu corpo de baile vai, um de cada vez, dedicando um passo, um fragmento, uma pequena dança.
e isso é tão bem feito que os espectadores saem do filme maravilhados, apaixonados por aquela que inaugurou a dança teatro, sua tanztheater. um conceito de contemporaneidade que pode fácil virar vergonha alheia, mas que, bem feito, são outros quinhentos.
depois disso tudo, me vi obrigado a conferir outro documentário, que felizmente voltou aos cartazes por ocasião do lançamento do filme de wenders. em francês se chama les rêves dansants, sur les pas de pina bausch, o original em alemão é tanzträume.
gravado em 2008, poucos meses antes dela morrer, o documentário registra os meses de trabalho com adolescentes numa montagem jovem de kontakthof, que, salvo engano, também foi montada com velhinhos, como mostra o outro documentário.
esses adolescentes descobrindo a dança, o corpo, a desinibição e muito mais do que eu posso saber é absolutamente lindo de se ver. pina, cigarrinho sempre em punho, tem uma bondade e uma cara de bem vivida, satisfeita, que dá gosto. eu chorei umas três vezes, mas não fui o único. o senhor do meu lado soluçou até onde pude acompanhar. de lavar a alma.
accro à pina
dia desses eu combinei com um par de pessoas e fui ao cinema assistir pina, o documentário (?) em 3d dirigido pelo win wenders sobre a tão falada coreógrafa alemã de quem eu conheço tão pouco.
a grande première foi no festival de berlim, fins do último ano, fora da competição oficial. o motivo pra essa exclusão eu vim a descobrir depois: seria covardia, como acontece com as grandes estreias de grandes diretores nos grandes festivais, cheias de grandes expectativas.
covardia porque pina é um filme lindo, à altura da personalidade a quem é dedicado. mostra a sua trupe de dançarinos-atores, com quem ela conviveu por décadas, com quem tinha uma relação que me pareceu bem intensa e, o mais bacana, dos quais ela pegava traços e expunha vivências pra compor seus espetáculos, sempre com delicadeza.
o resultado é deixar qualquer um bobo. a terceira dimensão, usada num filme sem pirotecnia, como é de praxe, dá um brilho novo à coisa toda. seu corpo de baile vai, um de cada vez, dedicando um passo, um fragmento, uma pequena dança.
e isso é tão bem feito que os espectadores saem do filme maravilhados, apaixonados por aquela que inaugurou a dança teatro, sua tanztheater. um conceito de contemporaneidade que pode fácil virar vergonha alheia, mas que, bem feito, são outros quinhentos.
depois disso tudo, me vi obrigado a conferir outro documentário, que felizmente voltou aos cartazes por ocasião do lançamento do filme de wenders. em francês se chama les rêves dansants, sur les pas de pina bausch, o original em alemão é tanzträume.
gravado em 2008, poucos meses antes dela morrer, o documentário registra os meses de trabalho com adolescentes numa montagem jovem de kontakthof, que, salvo engano, também foi montada com velhinhos, como mostra o outro documentário.
esses adolescentes descobrindo a dança, o corpo, a desinibição e muito mais do que eu posso saber é absolutamente lindo de se ver. pina, cigarrinho sempre em punho, tem uma bondade e uma cara de bem vivida, satisfeita, que dá gosto. eu chorei umas três vezes, mas não fui o único. o senhor do meu lado soluçou até onde pude acompanhar. de lavar a alma.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
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