terça-feira, 18 de março de 2014

dona maria

no meu prédio acontece de ter uma zeladora -- vá você chamá-la de porteira e provavelmente receberá uma resposta daquelas não muito educadas. foi com ela que falei pelo interfone quando encontrei o apartamento onde moro agora e ainda nem sabia que ia ser a minha casa. ela é uma personagem engraçada para além do fato de ser uma mulher em posição habitual e preconceituosamente masculina (tipo motorista de ônibus). dona maria responde o interfone à americana, sem dar nenhum tchau, talvez por falar nele várias vezes ao longo do dia. entra cedo e, nos dias úteis, larga o batente fielmente no jocoso horário de 4:20. consome meus jornais velhos com o xixi dos seus gatos, e às vezes algumas revistas também, mas estas pra ler mesmo. faz comentários pontuais sobre a movimentação do prédio, escapando alguma opinião de morador xis ou ípsilon que ela não gosta ou acha mal-educado. solta algumas pérolas como "casar? eu fui casada 20 anos, mas nunca é tarde demais pra se arrepender!". é paraense e vez em quando traz um bolinho e oferece um belisco. leitora voraz, costuma se entregar a best-sellers e ao pessoal nórdico dos romances policiais, esse filão que só cresce pós-stieg larsson.

das leituras, alguns pequenos episódios. uma vez papeamos sobre "precisamos falar sobre o kevin", que ela acreditava ser uma história real e relutou por dias em concordar que não era. outra vez, fui atender o interfone (ele, de novo) com o coração palpitando na segunda-feira, esperando bronca depois de uma festa não muito modesta em casa. do outro lado, dona maria pedia pra baixar uns e-books que não estava conseguindo encontrar de graça pra colocar no e-reader novo dela. noutra vez ainda, não necessariamente nessa ordem, dei a ela "a elegância do ouriço", que conta a história de uma gardienne (vulgo zeladora) mais esperta do que se suspeita.

na última semana, ela veio me pedir ajuda. vai pro canadá nas próximas férias, que passarão pela data do seu próximo aniversário de mais de uma mão de décadas. mas o processo de tirar o visto estava sendo extenuante, não conseguia preencher o formulário no seu computador nem com a ajuda do filho e me pediu auxílio. combinamos então um horário e ela veio, com a papelada toda e a checklist do consulado. minha pulga estava lá, atrás da orelha, e foi sendo saciada enquanto percorríamos os formulários juntos. acontece que dona maria descobriu o mundo: percebeu que as passagens aéreas podem caber no bolso e que não é nada alienígena dar um pulo em outro país. optou pelo canadá, não sei se depois de ver imagens bonitas, se por ter alguma memória de alguma maneira ligada às terras de lá ou o quê, mas pouco importa. não conhece ninguém na parte de cima da américa, tampouco fala inglês, o que tem lhe tomado cerca de três horas diárias em aulas on-line. fiquei sabendo um pouco da composição da vida e da família dela ao preencher os campos dos documentos sem fim, outro pouco da sua filosofia de vida, e encerramos, faltando alguns dados, como sempre. hoje ela trouxe o que faltava e se foi feliz da vida, toda faceira, com o pendrive em mãos e o canadá na ideia.

na minha cabeça, ainda um monte de curiosidades e outro tanto de percepções que às vezes não são das mais lisonjeiras. por que o canadá? como será que vai ser essa viagem? essas e outras questões variadas me acometem e levam a outras. estou aqui, ansioso pra saber como vai ser e o que virá ainda antes e depois dessa aventura.

vai pro mundo, dona maria, que ele é de todo mundo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

que o mundo está cheio de água, não é nenhuma novidade. tampouco que boa parte dele se orienta justamente em relação a ela -- posições, portos, acessos, praias, petróleos, alimentos. engraçado então é que tão pouca credibilidade se dê à pesca, aos peixes, aos pescadores. puxando pelo fio das coisas recentes, vem o seguinte. primeiro ninfomaníaca, com seligman, aquele que resgata joe, traçando o paralelo da pesca quando a protagonista narra o episódio da competição quantitativa de parceiros sexuais a bordo de um trem, que dura não mais que o tempo da viagem e recompensa a vencedora com chocolates. presa e predador? não: pesca, isca, fluxos, disposições. é isso a sedução. depois, um certo trabalho que estou fazendo neste exato momento (e do qual escapo um pouco pra refrescar o cérebro com estas linhas), uma tradução cabeluda de uma revista filosófica francesa que discute o partido imaginário e se apoia no exemplo do movimento operário italiano de autonomia ocorrido em 77. logo depois de falar da comodidade do estado de tentar domesticar a técnica black bloc na forma de sujeito, um dos capítulos é aberto com esta citação, que fala por si só:

Para tentar contrariar a subversão, é necessário levar em conta três elementos distintos. Os dois primeiros constituem o alvo em si, ou seja, o Partido ou o Front e suas células e comitês de um lado e, do outro, os grupos armados que os apoiam e que são apoiados por eles. Pode-se dizer que eles constituam a cabeça e o corpo de um peixe. O terceiro elemento é a população, e isso representa a água na qual o peixe nada. O peixe muda de um lugar a outro de acordo com o tipo de água na qual foi feito para viver, e o mesmo pode ser dito das organizações subversivas. Se um peixe tem que ser destruído, ele pode ser atacado diretamente com uma vara ou rede, considerando que ele esteja numa posição que dê uma chance de sucesso a esses métodos. Mas se a vara e a rede não obtêm êxito por si só, pode vir a ser necessário fazer algo com a água que force o peixe para uma posição onde ele possa ser capturado. É concebível que seja necessário poluir a água para matar o peixe, mas é pouco provável que essa seja uma linha de ação desejável.

[frank kitson, low intensity operations: subversion, insurgency and peacekeeping, 1971]

a ela se segue justamente de um trecho desta música, que data da mesma época e fala do conflito de que trata o texto. data também dos tempos pré-conflito do meu casamento, que o (cônjuge, parceiro, namorado?) cantava alegre de olhos fechados, sorriso na cara e bradando fiiiiiiii, fi-fiiiiiiii afiadíssimo acompanhando o piano da canção, compondo uma dessas lembranças que não vão embora e fazem bem de não ir. esse que cantava era nascido precisamente sob o signo de peixes, que também é o meu ascendente e que é associado à constelação de pisces, que dizem ser, na mitologia, a representação do laço entre vênus e seu filho cupido quando se jogam na água em forma de animal para fugir do gigante tífon. um assunto que também deixaria desfiar muitas coisas mais, mas esse nado não pode acontecer agora por motivo de tempo curto e ignorância.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mas a memória não me deixa mais amar, compreendes? Tudo termina e fica muito para memorizar. Será possível que nada te desmancha, será que não és capaz de te deitares aqui comigo, sôbre a colina? Calada. Vem, gazela fina de olhinhos côr de maravilha, vem.
(p. 43)

Goi, goi, pai coração de boi, pão pão Joana de Ruão, goi, goi, o pai não sabe o que dentro de mim é, eu sou três, perfeito querubim com o buraco da mãe e o mais comprido do pai, eu sou criança de muito entendimento, de muita verdade, de muita poesia, é preciso mastigar o que o pai escreve, mastigar e engolir porque o que vale é a poesia e não tratados, fantasmagorias do pai, o que vale é a planície doirada, o vale côr de beterraba, o que vale é o três dentro de mim, noiteaurora, pombamora, branco e vermelho dentro de mim, pai tristeza que não me quer querubim, mãe encantada do pai e por isso afligida e surprêsa em relação a mim, goi goi alecrim, goi goi espigão, goi goi roseiral-mirim.

(p. 45)

Senhores, eis aqui, um nada, um merda neste tempo de luta, enquanto nos despimos, enquanto caminhamos pelas ruas carregando no peito um grito enorme, enquanto nos matam, sim porque nos matam a cada dia, um merda escreve sôbre o que o angustia, e é por causa dêsses merdas, dêsses subjetivos do baralho, dêsses que lutam pela própria tripa, essa tripa de vidro delicada, que nós estamos aqui mas chega, chega, morte à palavra dêsses anêmicos do século, êsses enrolados que se dizem com Deus, Deus é esse ferro frio agora na tua mão, quente ao peito do teu inimigo, Deus é essa bala, olhem bem, Deus é um fogo que vai queimar essas gargantas brancas, Deus é tu mesmo, homem, tu é que vais dispor do outro que te engole, e quem é que te engole, homem?

(p. 55)

Escrever um livro é como pegar na enxada, e se você não tem uma excelente reserva de energia, você não consegue mais do que algumas páginas, isto é, mais do que dois ou três golpes de enxada. Por isso, nessa hora de escrever é preciso matar certas doçuras, é preciso matar também o desejo de contemplar, de alegrar-se com as próprias palavras, de alegrar o olhar. É preciso dosar virilidade e compaixão.

(p.134)

&


(...) descansei, mas no descanso também sofro dessa angústia de ser, e no escuro uma noite ME PENSEI. E vi matéria vasta, e quando digo matéria já te penso pensando na matéria em que pensas. Não é como tu pensas.

(p. 171)

[hilda hilst, "fluxo", "o unicórnio" e floema, respectivamente. tudo do fluxo-floema]

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Às vezes dá vontade de escrever com maiúsculas. Até que você vê como vai ficando o relevo do texto e pensa: "Será mesmo?" Deixa tentar mais um pouco. acaba que sempre acha melhor não.

(...)

melville talvez explique. bartleby talvez melhor ainda.

domingo, 29 de setembro de 2013

rajada

acho que nunca falei aqui sobre os meus lapsos musicais. eles acontecem mais ou menos assim: uma música me acomete, de ficar cantarolando sem controlar bem onde estou fazendo isso. a cantoria sai, espontânea. de repente, segurando o regador e papeando com as plantas, ou colocando o tênis pra sair de casa. qualquer situação das mais prosaicas acaba sendo infestada pelo significado da letra e eu me percebo como em capa de revista que vende mulheres em posição de vulnerabilidade por questões ditas mercadológicas: me surpreendo nu. peladinho. tudo o que diz a letra diz o que acontece dentro da minha cabeça, essa que eu sei tão pouco pôr pra fora, mas que sobe à superfície num transbordo incontrolável e aparentemente inofensivo. as pessoas nos arredores não costumam se dar conta de toda essa exposição, e eu lá, rugindo e rougindo, um misto de voracidade e vergonha infantil.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

derramamento de ignorância

finalmente vi o vídeo e quis escrever um gole. é tão raro ter tempo e vontade em confluência espontânea que não há como frear.

fiquei a princípio decepcionado de ter perdido ao vivo, mas resta a expectativa de outras apresentações. a lacuna se deve a fatores os mais distintos, alguma politicagem até, mas seu trabalho de captação foi bem competente, o suficiente pra resolver isso em partes. aconteceu então que me senti atônito, mais ou menos na altura do diafragma. e o que vem é a percepção crua e um tanto ignorante que grudou, (mal) organizada na medida em que as ideias permitem.

as pessoas vão, depois vêm, depois vão e vêm, depois começam a interagir, depois em círculo, tudo isso acompanhado de um crescendo no som, na luz, no gesto. isso foi me dando uma angústia, um perfume (que talvez seja só cheiro mesmo) de rotina. me fez pensar bastante nesta outra dança, de que já falamos e que me arrebatou na mesma medida. a afinidade é clara.

emoldurando, o figurino simples e direto. consegue ficar em segundo plano sem sumir, ser colorido sem pesar a mão na cor e, mais importante, deixa dançar também o suor, que me é tão caro. acho que é isso que faz mais diferença pra mim do clássico ao contemporâneo. saem as sapatilhas de ponta que massacram os pés, os figurinos pomposos, o cenário grandiloquente, a busca maquiada do gesto perfeito e distante do cotidiano. entram a roupa de todo dia, o ambiente minimalista, os movimentos mais desprendidos do conceito de beleza clássica, o suor que sai da virilha sovaco peito cu pernas rosto couro cabeludo.

da secreção, a etimologia já diz: "separação (das partes), dissolução". é o resultado daquilo que se faz, daquilo que se perde, do ponto de vista mais prático ao mais abstrato, e ela não pode ser ignorada. dançar com o suor conta o esforço envolvido ali, o domínio de corpo, além de agregar ao que é narrado na dança, ao que acontece no palco.

e quando começam a soar os pratos, a coisa fica tão linda. vão nascendo umas simultaneidades embaralhadas, em lampejos, o mais puro reflexo da era do excesso de informação. foi esse elemento que me deu o clique da dança, assistindo isto dois anos atrás. as coisas acontecem aqui, ali, de repente do outro lado, um cruzamento conecta dois ou mais bailarinos, que continuam cada um no seu rumo. não tem mais jeito, não dá pra ver tudo. há que se fazer escolhas, até aí.

então vira uma convivência. os tropeços, apoios e atiramentos deixam fazer tantas leituras que não cabe tentar desenvolver aqui. os protagonismos vão mudando ao sabor do olhar e do desespero de apreender tudo. é isso, é assim, é o tempo todo, cada hora uma coisa puxa de um lado, interage de uma forma. a única maneira é ir lidando com todas elas como vêm.

e é nisso que a dança tem me pinçado. saber veicular tanta coisa com o corpo é de uma clareza tão grande de si que faz toda diferença. sinto vontade de dançar pro mundo como danço quando estou absolutamente sozinho em casa, de aprimorar isso, de entender a técnica que existe por trás pra poder brincar com ela. mas, de novo, é tanto com que lidar que esse front talvez precise esperar um bocado. arquiteto pra que não demore muito.

me despeço suado.

domingo, 25 de agosto de 2013

da série: belos nós

In having meaning, in expecting realisation, in deserting wearying, in exhausting attending, in loving insisting, in embarking anything, in continuing meaning, in persisting working, in hoping having been realising, in urging continuous hoping, in longing for existing, in hearing encouraging, in desolating what is waiting, in returning what has been being the ridiculous part of everything, in remembering all of conquering that has meaning, in straining all of selling that has buying, in operating all the desolation that has repeating, in all that is and was these who were and came were the ones who are when they stay and do not remain where they will be, these were the ones who are when they are and they are when they are as they had when they had what they had because they did not have what they could have since they did not have all they did have as they were when they are.

[gertrude stein, g.m.p.]